De quantos crimes cotidianos é feito o combate ao crime no Brasil?

Publicado: 07/22/2019 em Bobcontroversista

Os juizes, pastores, politicos profissionais, repórteres, editores e etc possuem um estranhamento tão profundo em relação ao mundo de populações que raramente aguçam ouvidos e olhos para perceber essas realidades sob outros ângulos, de forma critica e na praxis. Desse modo, vários clichês são repetidos como verdades inquestionáveis. A própria idéia de crime organizado deve ser (re)vista com cuidado. Se existe crime organizado, certamente ele não está nas favelas, nem se configura por ter um telefone celular dentro de cadeias. 

Organizada é a chegada da droga e das armas. Organizada é a venda das armas que vão parar nas mãos daqueles que são responsáveis pelo varejo da droga. O arsenal que qualquer um que entra nas favelas onde há venda de drogas pode ver chegar em parte pelas mãos das próprias forças estatais. Não são poucas as histórias de sequestro de fuzis, com pedido de resgate para devolvê-los, feitos por aqueles que se dizem ao lado da lei. 

Organizada também é a produção dessas armas e a sua distribuição pelo mundo. Nenhuma das grandes armas que se vêm nas favelas: AR-15s, AKs, G3, etc são produzidas no Brasil. São empresas multinacionais, totalmente legalizadas, que fabricam essas armas massivamente, independentemente de seus países estarem ou não em guerra. Essas armas são fabricadas sem controle, em uma quantidade que, para tornar sua comercialização lucrativa, precisa de grandes e pequenas guerras sendo fomentadas cotidianamente no mundo. 

Nossa “guerra particular” é fundamental nisso e o proibicionismo em relação à venda e consumo de drogas é um combustível essencial. Mais armas pros comerciantes, mais armas para o Estado combater os comerciantes. Dinheiro que poderia ser investido na saúde, educação, cultura, trabalho, renda e emprego para de fato combater as causas da violência. Hoje o que se gasta para combater o comércio e o consumo das substâncias proibidas é mais do que se gastaria em saúde pública para tratar os drogaditos caso seu uso fosse liberado. 


Organizada também é a entrada do dinheiro ilegal do tráfico internacional de drogas e armas no sistema financeiro. Os bancos, instituições financeiras do mundo “legal”, recebem esse dinheiro e ajudam assim a limpá-lo, permitindo que ele vá alimentar legalidades e ilegalidades que são parte de uma mesma coisa sob o capitalismo financeirizado. Dito de outra maneira, não é possível existir tráfico de drogas, seja o grande tráfico internacional seja o varejo dos condomínios e das favelas, sem a conivência das instituições financeiras. Isso demonstra o quanto é falsa e mistificadora a culpabilização dos usuários de drogas pela violência gerada pela presença e uso de armas de grosso calibre por toda a cidade. 


O consumo de maconha, por exemplo, é histórico entre as camadas populares de nossa cidade, compondo estilos de vida e assumindo sentidos culturais negados pelo proibicionismo. Quanto à classe média, tal consumo se difundiu sobretudo no esteio da contracultura, a princípio como contestação à sociedade de consumo e depois adquirindo novos significados, mas sempre com algum resquício de rebeldia. No caso dos chamados “viciados”, sobretudo em cocaina e crack, são pessoas que merecem tratamento, pois são portadores de uma doença que deve ser vista como problema de saúde pública e não como resultado de falhas de caráter. 

Desresponsabilizar o Estado e sua fracassada política de combate ao crime é obscurecer a importância daqueles que verdadeiramente lucram com essas “guerras” que aumentam a venda de armas e jornais. 

Algumas perguntas ficam sem respostas. 
Por que, por exemplo se elegem as favelas como o palco do combate ao comércio de drogas? 
Todos sabem que o comércio e consumo de substâncias ilegais correm soltos em boates frequentadas pela classe média e classe média alta nacional e no entanto não existem registros de “operações” realizadas nessas localidades. Nem em condomínios de luxo onde se consomem drogas e que também invadem áreas de mata atlântica, poluem lagoas e mares numa escala muito mais ameaçadora do que os barracos das favelas. 

Por que os inimigos da sociedade foram eleitos entre aqueles para quem o comércio varejista de drogas é emprego, é alternativa de uma vida sem muitas alternativas? 
A grande maioria dos jovens que hoje empunham as armas nas favelas não têm acesso à educação de qualidade, à saúde, ao emprego digno, à equipamentos culturais públicos ou privados (muitos jamais foram ao cinema, por exemplo). 
São esses os inimigos da sociedade? 
Em meio a essas reflexões, lembrei de uma frase de Bertolt Brecht: 
“Aquele que desconhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e a chama de mentira é um criminoso.”

Cabe perguntar: 
De quantos crimes cotidianos é feito o combate ao crime no Brasil?

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